Malangatana O homem que recusou odiar ou O longo caminho do olhar

  • Malangatana : L’homme qui a refusé de haïr ou Le long chemin du regard
  • Malangatana: The Man Who Refused to Hate or The Long Path of the Gaze

Ficção

O autor faz a evocação de Malangatana Valente Ngwenia – o maior pintor moçambicano do seu tempo e um dos maiores de África – no longo percurso que mediou entre 1965 e 2011, anos que balizaram o início do seu conhecimento recíproco e a morte deste último, ocorrida a 5 de Janeiro de 2011.
Foi um tempo estranho e único, marcado por múltiplos acontecimentos intensos, onde a paz e a guerra estiveram presentes, a par de uma pletórica actividade cultural que teve o seu curso em Moçambique e que consentiu uma surpreendente constância de amizades que só a morte fez findar, mas que o testemunho da memória teima em resgatar.

Fiction

L’auteur évoque Malangatana Valente Ngwenya – le plus grand peintre mozambicain de son temps et l’un des plus grands d’Afrique – au long parcours qui s’est déroulé entre 1965 et 2011, années qui ont marqué le début de leur connaissance mutuelle et la mort de ce dernier, survenue le 5 janvier 2011.
Ce fut une période étrange et unique, marquée par de multiples événements intenses, où la paix et la guerre coexistaient, parallèlement à une activité culturelle foisonnante qui s’est déroulée au Mozambique et qui a permis une constance surprenante dans les amitiés, seulement interrompues par la mort, mais que le témoignage de la mémoire s’efforce de préserver.

Fiction

The author recalls Malangatana Valente Ngwenya – the greatest Mozambican painter of his time and one of Africa’s most significant artists – over the long trajectory spanning 1965 to 2011, the years that marked the beginning of their mutual acquaintance and Ngwenya’s death on January 5, 2011.
It was a strange and unique period, marked by multiple intense events, where peace and war coexisted alongside a prolific cultural activity that took place in Mozambique and allowed for a remarkable constancy of friendships, only ended by death, but which the testimony of memory strives to preserve.

Plan

Texte

Sobre o João Esteves Pinto1

Sobre o João Esteves Pinto1

I.

Malangatana, Aué!

Sobre a areia mais fina do que o pó, mais vermelha do que o sangue.

Os passos do alferes caminhavam para o caniço nas noites disponíveis de sábado, mascavavam persistentes para lá do último machimbombo, bem depois da Av. 24 de Julho, do Alto Maé, já bem dentro do Xipamanine.

Areia fina, cansativa, exigente.

– O Malanga está?

Abria a Gelita. – Entra.

O Mário dorme no abandono da esteira.

– Malangatana, aué!

Soba soberano da noite; os pincéis, os óleos, todas as cores revelavam imagens, gestos, composições, interrogavam um mundo como interroga o mar um marinheiro que navega nas primeiras aventuras entre a admiração e as perguntas que se movem no seu íntimo.

Lichigani, Jacaré!

Lichigani, Mulungo!

As borboletas dançavam mágicas contra as lâmpadas, exorbitavam de emoções no seu fulgor.

– Onde está o Oblino?

Incendiavam-se sobre a tela olhos fixos de leopardos, os dentes, as garras, os gumes, mãos, lábios, ventres, nas emoções de um alfabeto inventivo

A Percina dança!

A areia rubra, depois do cacimbo, há-de ficar mais viscosa e plástica do que o óleo de Holanda.

O Chissano lutou toda a noite com a madeira, as camarinhas escorreram-lhe sobre os olhos fixos e tensos até que daquele tronco informe se soltou um chicova que voou para espantar os maus presságios da noite, e assim ficou com as pupilas desorbitadas, as asas abertas, grandes, assim ficou, como eu o vi, definitivo, já na madrugada.

A Percina dança e canta!

– Quem não gosta da Percina? Quem?

O Paulo Come foi buscar a distância absoluta lá para Benfica, na Estrada de Moçambique, que aponta ao Norte pelo caminho de Marracuene e de Vila Luísa.

– Eh! Paulo! A palavra suave, a longa sabedoria de um cocuana, a palavra com que se urde a amizade que fica para lá dos tempos, a lâmina mais exigente e dúctil que algum dia esculpiu em Moçambique! Paulo Come, da tribo dos Mariqueles – aqueles que andam, que vão pelo caminho –, disse-mo como quem diz porque é que tinha ido morar para tão longe, empurrado pelos outros, pelos das tribos dominantes; disse-mo como quem liberta da madeira as aparas que estão a mais e que são inconvenientes à perfeição. – (E ele sabia o que era a perfeição, caramba!) Olha esta estátua que obriga à contemplação sem tempo e sem reparo!

Mercado do Xipamanine! O Manqew sentou-se diante da feiticeira para, também ele, pintar!

A Percina dança, canta, assobia. – Aué! Éh! Éh! Éh! Éh!

O Manquew sentou-se agora, ali onde mora, junto do mercado, onde se vendem capulanas, frutas, legumes, carvão, peles de animais, ossos com que se faz feitiço, lugar onde há sempre gente que se move em todas as hipóteses de um destino.

Veio o tempo das chuvas e das torrentes. O Manquew começou a pintar a feiticeira.

Veio o tempo das chuvas e das torrentes; já não há areia; só há matope rubro e viscoso, por onde tudo se agarra, escorrega e ensopa.

Vou para lá da 24 de Julho, do Alto Maé, do Xipamanine.

– Gelita, o Malanga está?

O Manguiza já anda, come papaia.

As mãos, os ventres, os corpos, os olhos fitam-nos e interpelam-nos sobre a tela, impõem-se para lá do silêncio e do chá que tomamos juntos.

Onde vamos buscar palavras?

Lindo Lhongo chamou o Norberto Barroca e disse: – Isto é teatro! – Está bem, vamos então ensaiar teatro. Foi no Avenida; congregou todos no Lobolo e até tu, Malangatana, arredaste os pincéis e foste dançar no palco quando os tambores do batuque celebraram a festa, narraram emoções e, no súbito imprevisto, carpiram o drama; e depois, quando tudo parou, o coro dos homens ressoou em vozes densas de baixos, exigindo o silêncio; o coro advertiu a plateia, sagrou-se num som solene que revelou a verdade daquele alfabeto que foi por todos entendido porque se abriu no lugar certo para aquelas vozes e para aqueles ouvidos na plena verdade do instante.

– E quem não ouviu então as vozes feridas das mulheres nos seus gritos?.

A Percina, Éh! Éh Éh! A Percina grande, gorda, mamana do som e do ritmo, dilui a capulana no delírio da dança e das palmas, esvaziou as palhotas, já não há ninguém que não participe, até as crianças andam por ali no som ritmado da noite.

– Moçambique!!

A Maria e o Pedro nasceram por esse tempo.

– Lindo Lhongo, depois vieram as “Trinta mulheres do Muzeleni”; que outras peças vieram a seguir?

Malanga, agora são os azuis e a cor quente do caju, a fome e o amor, súmula essencial da humanidade.

A caligrafia das cores expande-se sem restrições, impõe sobre a tela o seu som, a cor, a forma, o ritmo, o mistério, a alegria e a dor.

– Eh!? Vai embora?! Vai embora?!…

Perguntou três vezes o Oblino antes de me largar a mão com o espanto das coisas impossíveis.

– Sim, vou. Venho despedir-me.

– E quando volta? Quando?

– Não sei dizer. Creio que nunca mais vou voltar.

– Não pode!

– Não pode mesmo!

– Não sei dizer palavras, Oblino.

– Eh! Malanga!

Olho os teus quadros: estão na minha parede. Os meus filhos sabem de um mundo fantástico de que eles são o documento exigente e impulsivo.

Milhares de pessoas o saberão com eles.

Por tudo isto, a exposição que fizeste em Lisboa na SNABA foi necessária porque ela representou – única – na linguagem superior da arte, os laços, o tempo irrepetível de pessoas, de povos, que andaram sobre a gramática da História, de uma história conturbada, mas real porque vivida, sofrendo os dramas, inventando o sonho, fazendo a vida.

II.

E decorreram mais de 30 anos sobre as palavras escritas aquando da tua exposição na SNABA.

Agora é um estranho tempo de recordações.

Uns anos depois da exposição, fizeram-te uma homenagem no ISPA; a teu lado, na tribuna, ficou a esposa do arquitecto Pancho Guedes. Os oradores falaram sobre o que o programa anunciara e depois falaste tu, com o teu atropelo de palavras de sempre, sem qualquer atropelo de ideias, evocaste a tua infância e adolescência – afinal quando tudo nasce –, e disseste:

que o Pancho te contratou para mainato depois de te ver pintar no Núcleo de Arte de Lourenço Marques, mas que também te daria todo o tempo do mundo para que pintasses na sua garagem e que também te daria tempo para brincares com os seus filhos;

e disseste:

que vocês faziam tolices como todas as crianças e jovens, e que a esposa do arquitecto Pancho Guedes se zangava como qualquer mãe zelosa quando as crianças se portam mal, e que os filhos dela levavam tareias sempre que as mereciam, e tu tinhas que ouvir ralhetes que eram só para ti, por actos de que foras cúmplice e autor muitas vezes,

e que a frequência dos ralhos acompanhava a frequência dos vossos desmandos, até que um dia não ouviste apenas ralhos e levaste também umas palmadas.

E tu, nesse dia – disseste –, tu sentiste que eras exactamente igual àqueles irmãos e que eras, afinal, já filho daquela família!

E tu, perante aquela assembleia reunida em cerimónia, tu choraste convulsivamente e a tua voz já não gaguejou mais, porque se calou de emoção comovida.

Os anos passaram – passam sempre e sem remédio – e eu fui, não há muito (ou há já uma eternidade?) fui ver-te com a minha mulher ao Hospital de Santa Maria e tu estavas aparentemente como de costume, e falámos longamente com silêncios que ficaram incómodos naqueles instantes; recordámos o António Quadros, que tu consideravas o melhor pintor de Moçambique, e que também era Grabato Dias quando se exprimia pelos seus poemas inventivos; e recordámos que ele faltou ao último almoço combinado, recordaste que, de súbito, ele morreu.

Recordámos o Paulo Come e a sua sabedoria, a sua escultura dúctil de inspiração rara, que, tão jovem, morrera já também. – Ainda estará em tua casa a escultura do curandeiro que me pediste para ele te vender?

Recordámos o Chissano e a sua personalidade impulsiva, o seu trabalho agreste, afirmativo, sobre a madeira; recordámos a sua estranha e mal explicada morte e também o seu funeral com uma pele de leopardo sobre o seu corpo nu, por determinação sua, tal como um guerreiro ronga.

Agora desejo que a Percina nos lembre a todos e, se já não puder dançar, nos lembre com os seus cânticos mágicos e os seus braços a avantajarem-se no ar; e espero que o Oblino não deixe de tocar aquela melodia de guitarra e alterne ainda com o som sonoro e rápido dos tambores.

Porque recordámos então a morte de tantos? – Que estranha e forte presença, a dessas ausências!

Já não lembrámos nem os teus tempos de prisão nem, depois, os tempos em que foste desterrado para seres "reeducado" em Nampula.

Não, isso já não lembrámos.

III.

Mas eu quero testemunhar-te que Portugal se lembrou de ti e que te honrou com actos fúnebres, solenes, no Mosteiro dos Jerónimos, lá, onde tem os seus maiores – aqueles que são indiscutíveis na grandeza e que souberam execrar o ódio.

E deixa-me dizer sem palavras, porque elas seriam sempre imperfeitas, deixa-me dizer-te que muitos dos de então hão-de recordar-te como se estivesse noite e ouvissem as músicas rituais, frementes, que se ouvem em lugar incerto no tempo escuro da lua nova.

E todos suspeitarão que a Gelita há-de estar desolada e só, e que os vossos filhos, com os olhos dilatados dos teus quadros, hão-de estar a fitar o silêncio

Glossário

Lichigani – boa noite

Mainato – criado, empregado doméstico

Lobolo – cerimónia do casamento

Mamana – mãe, matriarca

Cacimbo – estação da seca

Matope – terra molhada e viscosa, lama

Machimbombo – autocarro

Ronga – tribo do sul de Moçambique

Mulungo– branco, europeu

Chicova – coruja

Cocuana – velho, ancião

Capulana – pano de vestuário

Notes

1 João Esteves Pinto nasceu no Sabugal, distrito da Guarda, em 12 de Julho de 1940, é licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, foi, entre outras funções, Administrador da Imprensa Nacional - Casa da Moeda ; nessa qualidade, criou o DRE – Diário da República Electrónico, foi co-fundador do "Fórum dos Jornais Oficiais da União Europeia", constituído sob proposta sua ( Viena – 2004); foi, igualmente, co-fundador do"Fórum das Imprensas Oficiais de Língua Portuguesa" (Brasília – 2005); publicou o livro de poemas Ficaram Pregos Pelas Paredes (Recife – 2004), tem publicados textos – prosa e verso – em revistas culturais portuguesas – ConfluênciaForo das Letras e Praça Velha , em revistas brasileiras – Continente MulticulturalCorreio das Artes e Fabulação e na Reflexos n°1. Retour au texte

Illustrations

Citer cet article

Référence électronique

João Esteves Pinto, « Malangatana O homem que recusou odiar ou O longo caminho do olhar », Reflexos [En ligne], 2 | 2014, mis en ligne le 04 janvier 2026, consulté le 07 février 2026. URL : http://interfas.univ-tlse2.fr/reflexos/734

Auteur

João Esteves Pinto

Escritor

joaoesteves.p@gmail.com

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