Introdução ao dossiê José Saramago: criação, diálogo e crítica

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I. Apresentação de José Saramago

Autor de uma obra vasta e reconhecida, José Saramago (1922-2010), até ao momento o único Prémio Nobel de Literatura português, é estudado e celebrado neste dossiê temático, que se associa às comemorações do centenário do seu nascimento e dos 25 anos do Nobel por meio de um dos exercícios que, acreditamos, mais o valoriza e atesta a sua importância tanto no mundo lusófono como no amplo cenário da chamada literatura mundial. Ler Saramago, revisitar e analisar a sua obra com rigor e clareza, constitui em si uma homenagem a um escritor que muito fez pela promoção e valorização da Literatura e da Cultura Portuguesa.

O percurso de Saramago até à sua consagração como escritor é impressionante em vários aspetos, e convém recuperá-lo aqui para melhor contextualizar a sua obra e situar os estudos que sobre ela se debruçam neste dossiê, marcados pela diversidade temática própria da produção saramaguiana.

Nascido na pequena aldeia de Azinhaga, a 16 de novembro de 1922, José Saramago deveria ter-se chamado José de Sousa, mas recebeu do escrivão a alcunha pouco lisonjeira pela qual a sua família era conhecida1. Menos de dois anos depois, “migrantes empurrados pela necessidade” (Saramago, [2006] 2014, 10), muda-se com a família para Lisboa, onde passa a maior parte da sua vida e exerce uma série de profissões, de serralheiro-mecânico a empregado administrativo. Sem ter podido fazer estudos universitários, mas sendo um grande autodidata, Saramago publica um primeiro romance com apenas 24 anos: o livro deveria ter-se intitulado A viúva, mas por escolha do editor saiu publicado como Terra do pecado (1947), só reeditado meio século depois, em 1997.

O então jovem escritor começa a inserir-se de facto no cenário cultural do seu país sobretudo a partir dos anos 1950, quando passa a publicar contos, crónicas e recensões críticas em periódicos e a traduzir livros de ficção e ensaio. Sublinhe-se que, ao longo de três décadas (1955-1985), Saramago traduziu mais de sessenta títulos do francês para o português, entre os quais figuram obras de Colette, Guy de Maupassant, Baudelaire, Georges Duby e Étienne Balibar. É também graças ao seu trabalho de editor, entre 1959 e 1971, e, mais tarde, como editorialista (de jornais como o Diário de Lisboa e o Diário de Notícias), que Saramago pôde ter uma participação ativa no contexto cultural e político da sua época, ainda a viver sob o jugo do Estado Novo (1933-1974). Entretanto, Saramago publica duas coletâneas de poemas – Os poemas possíveis (1966) e Provavelmente alegria (1970) – e outra de contos, intitulada Objeto quase (1978). As suas crónicas, reveladoras de uma intensa atividade jornalística e de um agudo olhar crítico sobre o seu tempo, foram igualmente reunidas em volumes: Deste mundo e do outro (1971), A bagagem do viajante (1973), As opiniões que o DL teve (1974), Os apontamentos (1976) e, mais de duas décadas depois, Folhas políticas (1999).

Na esteira da revolução de 25 de abril de 1974, Saramago publicou um pequeno livro de breves narrativas poéticas intitulado O ano de 1993 (1975) e o “ensaio de romance” Manual de pintura e caligrafia (1976), como tal designado na primeira edição do livro. Por incentivo de terceiros, Saramago aventurou-se no teatro, começando com A noite (1979), também indissociável da Revolução dos Cravos, a que se seguiram quatro peças: Que farei com este livro? (1980), A segunda vida de Francisco de Assis (1987), In nomine Dei (1993) e Don Giovanni ou O dissoluto absolvido (2005).

Em diálogo com o oitocentista Almeida Garrett, um dos favoritos da sua biblioteca, Saramago compôs ainda uma Viagem a Portugal (1981), e esse território atravessado de ponta a ponta pelo escritor irá marcar uma parte importante da sua produção romanesca. Uma outra paisagem, o da ilha canária de Lanzarote, fará também parte da sua vida e da sua escrita a partir de 1993. Na esteira de uma lamentável polémica em torno de um dos seus romances mais notáveis e que mais gerou controvérsia, O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Saramago muda-se para Lanzarote com Pilar del Río, ilha que dará título aos seus diários de 1993 a 1997, publicados entre 1994 e 1998 (Cadernos de Lanzarote). Ali, Saramago viverá pelo resto da sua vida, vindo a falecer na sua casa em Tías, a 18 de junho de 2010.

Saramago é conhecido sobretudo como romancista, e como um romancista tardio, só tendo alcançado certa fama quando já estava perto de completar sessenta anos, após a publicação do romance que inaugurou o estilo pelo qual ficaria conhecido, Levantado do chão (1980). Entre os dezoito romances que escreveu no total, dois deles publicados postumamente, alguns já podem ser considerados obras canónicas, como é o caso de Memorial do Convento (1982) e O ano da morte de Ricardo Reis (1984), incluídos no programa curricular do Ensino Secundário português. Depois deles vieram: A jangada de pedra (1986), História do cerco de Lisboa (1989), o já citado O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995), Todos os nomes (1997), A caverna (2000), O homem duplicado (2002), Ensaio sobre a lucidez (2004), As intermitências da morte (2005), A viagem do elefante (2008), Caim (2009), Claraboia (concluído em 1953, mas só publicado em 2011) e Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas (inacabado, publicado em 2014).

Esse percurso literário é marcado por muitos outros acontecimentos e reconhecimentos, a exemplo dos quase quarenta títulos de doutor honoris causa que lhe foram concedidos, dois deles em França, pela Université Bordeaux Montaigne (1999) e pela Université de Lille (2004). A mais destacada das distinções recebidas é certamente o Prémio Nobel de Literatura, concedido em 1998 e celebrado como uma vitória coletiva de toda uma literatura que, enfim, recebia um merecido destaque. Conforme relatou a escritora Lídia Jorge em recordação daqueles dias eufóricos, a notícia sobre o laureado chegou em plena Feira do Livro de Frankfurt, com Saramago já prestes a tomar o avião de volta a casa, mas sendo intercetado a tempo e recebido de volta com júbilo por escritores, editores e leitores compatriotas e estrangeiros, entre os quais a romancista Agustina Bessa-Luís (1922-2019), cujo centenário também tem motivado uma série de comemorações.

Vinte anos depois do Nobel, escrevia Lídia Jorge em 2018, a festa não terminou e tem-se “estendido a toda a nossa Literatura” (Jorge 2018, 14). Neste ano de 2023, passado um quarto de século daquela festa, entendemos também que celebrar Saramago é continuar a dar destaque e visibilidade não apenas a um autor, mas a toda uma Literatura que, não temos dúvidas, merece ser muito mais lida, traduzida e estudada.

II. Apresentação do número

Dos diversos romances que escreveu à sua obra cronística e dramática, passando pela adaptação e receção que já resultou desse universo, as principais obras e vertentes da produção de José Saramago estão contempladas no presente dossiê temático, que reúne doze estudos de pesquisadores oriundos de universidades de Portugal, França, Brasil, Itália, Bélgica e Canadá. Intitulado “José Saramago: criação, diálogo e crítica”, este dossiê retoma o título do colóquio internacional em que tais trabalhos foram inicialmente apresentados e que decorreu em Paris, a 17 e 18 de outubro de 2022, sob a organização dos signatários deste texto e dos centros de pesquisa CREPAL (Sorbonne Nouvelle), CRIMIC (Sorbonne Université) e AMERIBER (Bordeaux Montaigne).

Tanto o colóquio como a presente publicação foram possíveis graças a uma série de parcerias e, sobretudo, a um trabalho coletivo e interuniversitário no âmbito dos estudos lusófonos em França. Convém lembrar que o colóquio contou ainda com o apoio do Instituto Camões, da Fundação José Saramago e do centro de pesquisa CRILUS (Université Paris Nanterre), e que este número é resultado de uma parceria com a Université Toulouse-Jean Jaurès e o seu Centre d’Études Ibériques et Ibéro-Américaines (CEIIBA), a que a revista Reflexos está vinculada e a quem somos muito gratos, com uma palavra especial de reconhecimento ao seu editor Marc Gruas. Estes agradecimentos e a evocação das parcerias não são mera cortesia, mas o sinal de uma nova dinâmica no seio das equipas de investigação na área dos Estudos de Língua Portuguesa em França, cientes de que só poderão existir e prosperar graças a um trabalho coletivo, colegial e colaborativo, que lhes permitirá resistir às ameaças que pairam sobre a disciplina.

Aqueles dois dias de profícuos debates, com três conferências e sete mesas-redondas, resultaram nestes ensaios que aprofundam a reflexão ali iniciada e que revelam a simultânea abrangência e vitalidade das pesquisas em torno da obra de Saramago, nomeadamente fora da esfera lusófona e dos Estudos de Literatura Portuguesa. Os principais eixos temáticos do colóquio estruturam também este dossiê, dividido em três partes, cada uma delas com quatro ensaios, que com frequência dialogam entre si. As três vertentes de reflexão propostas, que se resumem nos termos criação, diálogo e crítica – propositadamente amplos e com potencial para desdobramentos e aprofundamentos vários –, visam sobretudo sublinhar alguns dos pontos de contacto estabelecidos entre os textos. É certo, porém, que as reflexões sobre a composição narrativa e as estratégias próprias da criação, tanto quanto da adaptação incluída no primeiro eixo, não prescindirão de referir os muitos diálogos que atravessam a obra de Saramago, assim como o estudo sobre a biblioteca do escritor poderá tratar também do incontornável carácter crítico e do debate ético presente nas obras analisadas. Longe de se fecharem em si mesmos, os três eixos estão em constante diálogo entre si, acrescentando assim novas perspetivas e novos temas de reflexão.

1. Criação e adaptação: A História e as histórias de Saramago

O número abre com um artigo de Carlos Reis, eminente estudioso da obra de José Saramago – lembremos aqui o seu Diálogos com José Saramago (1998) –, e um dos seus maiores divulgadores fora do espaço lusófono. A sua reflexão gira em torno do conceito de diálogo, tanto numa perspetiva de estrita conformação discursiva, como, sobretudo, numa mais ampla aceção, de proveniência bakhtiniana. O seu estudo verte sobre obras de José Saramago da década de 80, com destaque para O ano da morte de Ricardo Reis e para aquilo que é designado como a sua cena dialógica; é nela que se situa a deambulação de Reis por Lisboa, os seus encontros com Fernando Pessoa e a projeção de manifestações intertextuais que atravessam o relato. Os contributos que formam a fortuna crítica daquele romance são convocados pelo investigador, em função do apoio que facultam a esta abordagem, ajudando a surpreender certas aporias que a obra de Saramago encerra.

É também sobre O ano da morte de Ricardo Reis que Cícera Antoniele Cajazeiras se debruça, analisando por sua vez a adaptação do romance pelo realizador João Botelho, cineasta eminentemente “literário”, acrescentando à sua leitura a adaptação do Ensaio sobre a cegueira, do realizador brasileiro Fernando Meireles, radicado em Hollywood, e cujas opções cinematográficas são radicalmente diferentes do cinema de arte e ensaio de Botelho. A pesquisadora foca, no entanto, a maneira como os dois cineastas se apropriam dos romances em apreço no sentido de aderir à sua natureza metaficcional e política, compondo textos fílmicos de feição autorreflexiva.

Quanto a José Vieira, o seu estudo incide sobre as crónicas que José Saramago publicou no jornal A Capital entre 1968 e 1969, reunidas em livro pela primeira vez em 1971. O seu objetivo é perceber de que modo os temas abordados nos textos compilados em Deste mundo e do outro vieram a servir de lençol freático literário para aquilo que seriam os grandes romances escritos a partir do final da década de 70. Se é verdade que foram obras como Levantado do chão, Memorial do Convento, O ano da morte de Ricardo Reis, O evangelho segundo Jesus Cristo, entre tantas outras, que tornaram Saramago num escritor de latitudes universais, não é menos certo afirmar, com o autor, que muitos dos temas e motivos abordados nos romances se encontram já nas crónicas. Ao falar, portanto, de um Saramago em botão, o pesquisador dá a ver um campo da narrativa saramaguiana que merece maior atenção, por se encontrar nele muita da seiva literária que o escritor utilizou no seu labor.

Por sua vez, Simon Dansereau-Laberge interroga as “ficções especulativas” de José Saramago para demonstrar como o autor sai dos quadros genéricos normativos para oferecer uma reflexão a partir do presente sobre os textos fundadores, nomeadamente a “criação” de Portugal com a História do cerco de Lisboa e os fundamentos do cristianismo n’O evangelho segundo Jesus Cristo. Enquanto a escrita de uma ucronia “em palimpsesto” é meticulosamente descrita com a ajuda de um narrador “surgressivo” no primeiro caso, a segunda obra oferece um “efeito” de leitura contrafactual, com base numa mudança perceptiva e intencional por trás das figuras simbólicas do Novo Testamento. Trata-se de uma abordagem interessada no jogo contrafactual com semelhanças no “intervencionismo” narrativo de Saramago, nomeadamente com a ajuda de indícios e sinais de conivência com o leitor, outros tantos elementos característicos da escrita saramaguiana.

2. Diálogo: a biblioteca de Saramago

Ao percorrer o universo literário de Saramago, o leitor depara-se com vastas ressonâncias intertextuais, num cruzamento de vozes, matérias, memórias, tempos e espaços que se adivinham nas dobras de uma escrita simultaneamente singular e plural, em que o contar e o recontar se imbricam de forma inelutável. Todos sabemos, pois, desde Kristeva e com base no dialogismo de Bakhtin, também convocado por Carlos Reis no seu artigo, que “[...] todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto” (Kristeva 2005, 68), palavras que ecoam na própria voz de Saramago quando lembra, numa entrevista concedida aquando de uma viagem à América latina, que “[t]oda a literatura é um palimpsesto” (Saramago apud Gómez Aguilera 2010, 194), tal como o é a sua vasta e inconfundível produção que convoca e dialoga com diversas obras, construindo-se num permanente e consistente entrelaçar entre diacronia e sincronia.

Na segunda parte deste dossiê monográfico, reúne-se um conjunto de quatro textos que evidenciam o constante diálogo estabelecido entre o universo do escritor e uma constelação de produções, num desdobrar com contornos rizomáticos e polifónicos. No ensaio “José Saramago: a voz e os ecos”, que abre muito a propósito esta segunda parte, Ana Paula Arnaut dá amplamente conta, através de exemplos ilustrativos, do enorme fascínio e da profunda influência que sobre ele exerceram variadíssimos escritores portugueses, entre os quais Raul Brandão, Almeida Garrett, Cesário Verde, Fernando Pessoa e a sua constelação heteronímica, assim como os grandes mestres do século XVII, António Vieira e Francisco Manuel de Melo, ou ainda Luís de Camões, cujas vozes ressoam ora de forma vincada ora com ténues matizes na prosa saramaguiana.

Se é densa e diversa – além de extremamente lúdica – a teia de ressonâncias colhidas em autores nacionais e estrangeiros, os arquétipos sagrados também ganham consistência na tessitura de algumas narrativas nimbadas de questionamentos sobre a essência divina e a condição humana. Atentando no último romance que José Saramago publicou em vida, Caim (2009), Francisco Martins procura salientar as diversas interações que o mesmo estabelece com o cânone bíblico, destacando a forma como o escritor, conhecedor de várias tradições extrabíblicas de interpretação e de suplementação rabínicas, recupera algumas personagens e episódios do livro do Génesis, num exercício de desconstrução, questionamento e reinterpretação que lhes confere novas roupagens. Francisco Martins explora assim os métodos usados pelo escritor nesta subversiva e ousada revisitação literária da narrativa sagrada, com uma sensibilidade e “disciplina hermenêutica” muito próximas da tradição midráshica clássica. Como demonstra na fina análise proposta, tal prática torna-se patente na recriação de personagens apreendidas como “construtos midráshicos”, na exploração das ambiguidades e polissemias do texto sagrado, na transformação de silêncios e lacunas abrindo caminho a possíveis eisegeses ou ainda nos processos de assimilação entre relatos e personagens por meio da transferência de motivos literários.

Considerando ainda este diálogo com a tradição bíblica e numa perspetiva mitocrítica, Katherine Rondou interessa-se, quanto a ela, pela figura evangélica e hagiográfica de Maria Madalena, à qual José Saramago conferiu um particular destaque em O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), romance em que o Nobel propõe um retrato humanizado das personagens bíblicas, apresentando-as como seres frágeis e revoltados contra os desígnios de um deus insensível, arbitrário e cruel. Nesta narrativa que chocou profundamente a ortodoxia religiosa e suscitou a maior polémica aquando da sua publicação em Portugal, Saramago retoma, como ilustra a autora, os componentes dos evangelhos canónicos em torno da figura de Maria Madalena, a que confere novos contornos inspirando-se, entre outros textos herdados da tradição, na representação da Madalena gnóstica e nas religiões matriarcais. Nesta revisitação do mito de Maria de Magdala, personagem que veio a adquirir, ao longo dos tempos, múltiplas facetas, José Saramago recupera, como demonstra, a imagem da mulher da teologia gnóstica, trazida para primeiro plano e com um papel essencial junto do profeta – à figuração da mulher pecadora sobrepõe-se a de guia espiritual –, reafirmando, desta forma, a sua posição crítica face à religião católica e ilustrando, também através desta heroína, a força da identidade feminina que marca a sua escrita.

Se as duas abordagens anteriores tiveram por enfoque a revisitação e desconstrução do cânone bíblico, a análise proposta por Sara Grünhagen, num ensaio com o sugestivo título “Uma carta que se envia para longe: José Saramago e Gabriel García Márquez”, procura estabelecer um paralelo entre a obra do Nobel português e a do escritor colombiano, focando particularmente os romances Levantado do chão (1980) e Cien años de soledad (1967), com o intuito de destacar um conjunto de afinidades, quer no que tange aos temas versados quer aos procedimentos narrativos adotados. A partir de uma análise comparativa e considerando estudos anteriores sobre os romances destes escritores com trajetórias e posições ideológicas muito semelhantes, a autora estabelece uma série de aproximações, que se prendem nomeadamente com a reconstrução de episódios históricos com tonalidades trágicas e a recriação de percursos individuais e coletivos, com especial incidência nas vidas precárias, silenciadas, esquecidas ou apagadas pela História. Destacam-se ainda, como refere, fortes similitudes na evocação dos ambientes e experiências do quotidiano das famílias que centram as narrativas, fruto das minuciosas pesquisas que ambos elaboraram. Do conhecimento do passado às grandes transformações do período em que viveram, da construção das personagens à denúncia de abusos e de violências exercidas por instâncias de poder, numerosos são os pontos de contacto identificados na produção de Saramago e García Márquez, escritores que não deixaram de testemunhar de uma profunda e mútua admiração.

3. Crítica: ética e utopia em José Saramago

José Saramago estabelece um diálogo fecundo entre a sua obra e produções culturais variadas, enriquecendo esse legado cultural mediante uma força criativa que abre caminho à reinterpretação, ao desvio e à expansão, empreendendo assim uma reinvenção do que parecia, até ali, definitivamente estabelecido. Um processo semelhante, tratado nesta terceira parte, incide em todo o tipo de conhecimento instituído e de práticas, julgamentos e pensamentos cristalizados. Os últimos textos deste dossiê salientam a autoridade daquilo que Boaventura de Sousa Santos chama “os cânones únicos da produção do conhecimento e da criação artística” (Santos 2011, 34, tradução nossa) que, segundo o sociólogo, têm o poder de produzir “não-existência”, tornando ausente o que está excluído do cânone ou o que escapa à racionalidade ocidental. Contudo, os quatro textos contêm também alternativas ao cenário atual, ou seja, incursões de José Saramago nos territórios da utopia. Dito doutra maneira, e permanecendo na linha de Boaventura de Sousa Santos, José Saramago “substitui o que o tempo linear apresenta como o vazio do futuro (um vazio que pode ser tudo ou nada) por possibilidades plurais e concretas, simultaneamente utópicas e realistas” (Santos 2011, 36, tradução nossa). Sendo assim, embora caracterizada, à primeira vista, por um certo pessimismo e uma visão algo desiludida da humanidade, talvez a obra saramaguiana não seja totalmente desprovida de aspetos utópicos. Esta premissa é o ponto de partida do ensaio “José Saramago – A sobrevivência da utopia: do ‘sol de justiça’ à intermitência dos vaga-lumes”, em que Teresa Cristina Cerdeira procura captar, na obra do Prémio Nobel, as últimas cintilações de uma humanidade em decadência. A persistência destas centelhas, detetáveis nos gestos de humanidade realizados pelas personagens ou nas suas experiências estéticas, são sinais da permanência de uma forma de utopia e de um centro ético, inclusive em textos tão distópicos e desesperados como o Ensaio sobre a cegueira. As pequenas luzes cintilantes deste romance, resquícios do “sol de justiça” que iluminara, décadas atrás, Levantado do chão, correspondem a traços de humanidade comparados a “vaga-lumes” por Georges Didi-Huberman no ensaio Survivance des lucioles (2009). Retomando a proposta do filósofo e historiador da arte, Teresa Cerdeira procura captar essas luzes persistentes, assim como o fazem, de formas diferentes, os autores dos três últimos textos deste dossiê.

De facto, essa possível dimensão utópica não escapa a Agnès Levécot que põe em destaque, no seu ensaio “José Saramago, descolonizador do pensamento”, as estratégias desenvolvidas pelo autor para revelar as relações de poder que regem o mundo, não deixando de patentear também as formas de resistência às injustiças e desigualdades assim denunciadas. A autora propõe uma releitura de Saramago através do prisma do pensamento decolonial e das propostas do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, nomeadamente as que reclamam novas modalidades de conhecimento no âmbito de uma necessária revolução epistemológica. Existem muitas analogias entre o mundo retratado na ficção saramaguiana e as clivagens denunciadas pelo sociólogo português, induzidas pelo capitalismo, pelo colonialismo e pelo patriarcado. As soluções propostas pelos dois pensadores para superar as assimetrias assim focadas também convergem, especialmente quando consistem na luta contra a ausência e a não-existência, corporizada, na ficção, pela atuação dos esquecidos da História ou de personagens lúcidas, capazes de ver para além das aparências. A luta contra a exclusão “abissal” pressupõe um reequilíbrio das relações entre mulheres e homens, também realizado no romance. Assim, a obra espelha a dimensão humanista do pensamento de José Saramago e a luta contra as estruturas e verdades estabelecidas.

Essa luta também se desenvolve no teatro de José Saramago. Embora menos estudada, a obra dramatúrgica está em sintonia com as linhas temáticas que estruturam a obra saramaguiana. Em “A escrita dramatúrgica de José Saramago: dissonância, reconfiguração e utopia”, Leonor Coelho analisa cada uma das cinco peças de teatro de José Saramago com vista a desvendar os compromissos éticos e cívicos assumidos pelo autor, bem como a dimensão utópica, revelada por meio de “brechas luminosas” que representam a esperança do advento de tempos mais harmoniosos e justos. Essa utopia assume diferentes aspetos: o sopro da liberdade que subverte as hierarquias e liberta a fala na sede de um jornal português, na alvorada do 25 de Abril (A noite); a obstinação do artista perante a indiferença dos poderosos, a adversidade, a austeridade religiosa e o conservadorismo (Que farei com este livro?); o impulso anticapitalista dado pelo herói d’A segunda vida de Francisco de Assis à sua Companhia, tornada empresa multinacional sujeita à economia de mercado; a persistência de uma atitude crítica e a procura de um desfecho num cenário de intolerância e conflito religioso (In nomine Dei); a subversão de configurações sociais e de sistemas de valores obsoletos em Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, onde o mito do eterno sedutor é desconstruído em favor de um poder mais assumido pelas mulheres. Assim, os cenários mais distópicos nunca estão desprovidos de novas perspetivas, ou seja, fazendo nossas as palavras de Leonor Coelho: “face à dissonância, o escritor inscreve o modo utópico que permitirá ao leitor/espetador (entre)ver rasgos luminosos”.

O texto de Pedro Fernandes de Oliveira Neto, “José Saramago e os princípios de uma ética da história”, vem encerrar este dossiê com a proposta de uma reflexão sobre a reorientação ética empreendida por José Saramago em dois textos teóricos publicados no Jornal de Letras. Estes dois artigos, “O tempo e a História” (publicado primeiramente em 1989 sob o título “Sobre a invenção do presente”) e “História e ficção” (1990), estabelecem os princípios de uma ética da história que rompe com uma conceção tradicional, ainda que bastante enraizada nas práticas e nos imaginários, que a torna uma verdade única, consensualmente aceite e indiscutível, uma história parcial e parcelar, muitas vezes recuperada para fins ideológicos por regimes autoritários. Ao apresentar os limites dessa visão da história, Pedro Fernandes destaca os princípios de uma ética saramaguiana fundamentada na ideia de que a historiografia é uma “aventura crítica do conhecimento” baseada na imaginação enquanto instrumento de inteleção do passado. Além disso, a conceção saramaguiana do tempo leva-nos a questionar o passado desvendando os silêncios, lacunas e contradições da história, ao mesmo tempo que faz brotar novos significados partindo daquilo que “poderia ter sido” (renunciando a procurar “o que foi”). Ao convidar-nos a repensar os vínculos estreitos entre literatura e historiografia, entre ficção e história, José Saramago demove mais uma vez linhas que pareciam inabaláveis.

José Saramago certamente rejeitou a utopia enquanto mero sonho compensatório perante uma realidade considerada desoladora, e é possível debater sobre o carácter utópico da sua obra (Arnaut 2014, 6-7). Mas também podemos concordar com esta proposta mais conciliadora:

A ação, as convicções e a escrita de José Saramago não foram utópicas no sentido da ortodoxia comunista ou socialista. Saramago praticava um materialismo radical do hic et nunc, sem dúvida ampliado para o futuro, mas para um futuro sempre imediato. Defendia ser urgente e inadiável agir sobre os perigos, as desigualdades e as injustiças da vida presente e concreta. (Nogueira, Baltrusch, Cerdà 2021, 9)

Na obra de Saramago, a “ação” consiste em abrir o campo das possibilidades e procurar alternativas à realidade vigente, não num lugar distante, hipotético e quimérico, mas no próprio mundo ou, quem sabe, no próprio homem, enquanto “centro de concretização das utopias” (Arnaut 2014, 11).

Ao tocar no que parece indiscutível ou imutável, e ao atrever-se a trocar o certo pelo incerto, o pensado pelo impensado, o consensual pelo questionável, a obra saramaguiana abre-se a todo o tipo de possibilidades que viabilizem mudanças futuras. Tal abordagem expôs José Saramago ao opróbrio e aos ataques mais virulentos, sendo, contudo, a via apontada pelo escritor para resgatar a nossa humanidade.

Bibliographie

ARNAUT, Ana Paula. “José Saramago: da realidade à utopia”. Cultura [on-line]. 2014, vol. 33, p. 1-18. URL: http://journals.openedition.org/cultura/2415 [acesso em 7 de março de 2023].

GÓMEZ AGUILERA, Fernando. José Saramago nas suas palavras. Lisboa: Caminho, 2010.

JORGE, Lídia. “Memória delicada”. Jornal de Letras, Artes e Ideias. 2018, no 1252, p. 13-14.

KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. Trad. Lúcia Helena França Ferraz. 2a ed. São Paulo: Perspectiva, 2005.

NOGUEIRA, Carlos, Burghard BALTRUSCH e Jordi CERDÀ (eds.). José Saramago e os desafios do nosso tempo. Universitat Autònoma de Barcelona, 2021.

REIS, Carlos, Diálogos com José Saramago. Lisboa: Caminho, 1998.

SANTOS, Boaventura de Sousa. « Épistémologies du Sud ». Études rurales. 2011, n° 187, p. 2-50.

SARAMAGO, José. As pequenas memórias. 4ª ed. Porto: Porto Editora, [2006] 2014.

Notes

1 Saramago é uma espécie de erva daninha que servia de alimento aos pobres. Retour au texte

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Référence électronique

Fernando Curopos, Maria Araújo da Silva, Sara Grünhagen et Silvia Amorim, « Introdução ao dossiê José Saramago: criação, diálogo e crítica », Reflexos [En ligne], 7 | 2023, mis en ligne le 16 mai 2023, consulté le 14 avril 2024. URL : http://interfas.univ-tlse2.fr/reflexos/1375

Auteurs

Fernando Curopos

Crepal – Université Sorbonne Nouvelle

fernando.curopos@sorbonne-nouvelle.fr

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Crimic – Sorbonne Université

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Crepal – Université Sorbonne Nouvelle / CLP – Université de Coimbra

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Ameriber – Université Bordeaux Montaigne

silvia.amorim@u-bordeaux-montaigne.fr

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