Do Estado Novo para a Revolução dos Cravos : Girolamo Messeri, o embaixador incómodo. Luta política e liberdade de imprensa

  • De l'Estado Novo à la Révolution des Œillets : Girolamo Messeri, l'ambassadeur dérangeant. Lutte politique et liberté de la presse
  • From the Estado Novo to the Carnation Revolution: Girolamo Messeri, the uncomfortable ambassador. Political struggle and freedom of the press

O processo político iniciado após a queda do Estado Novo suscitou questões que serviram de pretexto para aproveitamento político e instrumentalização de problemáticas do ponto de vista da política interna italiana. Esta reflexão tem como objetivo compreender a ação política do embaixador italiano Girolamo Messeri em Lisboa, na primeira metade da década de 1970, e revisitar os designados “caso Messeri” e “caso Ghioto”, tendo como cenário de fundo questões como a agitação política em Itália e a liberdade de imprensa.

Conclui-se que o “caso Messeri” insere-se na luta política entre, de um lado, o PCI e as restantes forças de esquerda italianas e, do outro, os democratas-cristão ininterruptamente no poder desde 1946. O “caso Ghioto”, derivado do “caso Messeri”, enquadra-se na problemática da liberdade de imprensa já muito presente na sociedade italiana em virtude dos processos de concentração das empresas jornalísticas e da necessidade de defender a independência do campo jornalístico em relação ao campo político.

Le processus politique initié après la chute de l’État Nouveau a suscité des questions qui ont servi de prétexte à une récupération politique et à l'instrumentalisation de certaines problématiques dans le cadre de la politique intérieure italienne. Cette réflexion a pour objectif de comprendre l’action politique de l’ambassadeur italien Girolamo Messeri à Lisbonne, durant la première moitié des années 1970, et de revisiter les "affaires Messeri" et "Ghioto", en prenant en considération des enjeux tels que l’agitation politique en Italie et la liberté de la presse. Il en ressort que l’« affaire Messeri » s’inscrit dans la lutte politique opposant, d’un côté, le PCI (Parti communiste italien) et les autres forces de gauche italiennes, et de l’autre, les démocrates-chrétiens, au pouvoir sans discontinuité depuis 1946. L’« affaire Ghioto », qui découle de l’« affaire Messeri », s’inscrit dans la problématique de la liberté de la presse, déjà très présente dans la société italienne, en raison des processus de concentration des organes de presse et de la nécessité de défendre l’indépendance du champ journalistique par rapport au champ politique.

The political process initiated after the downfall of Estado Novo raised issues that served as pretexts for political gain and the manipulation of problems from the perspective of Italian internal politics. This analysis aims to understand the political activities of the Italian ambassador Girolamo Messeri in Lisbon during the early 1970s, and to reassess the so-called "Messeri case" and "Ghioto case", set against a backdrop of political turmoil in Italy and concerns over press freedom. It concludes that the "Messeri case" is part of the political battle between, on one side, the PCI and other Italian leftist forces, and on the other, the Christian Democrats, who have continuously held power since 1946. The "Ghioto case", which arose from the "Messeri case", addresses the issue of press freedom, which was prominent in Italian society due to the consolidation of media companies and the necessity to maintain the independence of the journalistic field from the political sphere.

Plano

Texto completo

A Revolução de Abril foi acompanhada por jornalistas a partir de redações internacionais, sobretudo europeias e norte-americanas, por correspondentes distribuídos por vários países e enviados especiais deslocados para o palco dos acontecimentos (rede de captura). Os episódios que costuraram o tecido da transição para a democracia em Portugal, entre 25 de Abril de 1974 e o último episódio-símbolo da Revolução1, a 25 de novembro de 1975, alcançaram uma exposição pública internacionalmente relevante porque apresentaram altos níveis de incidência em diversos critérios de noticiabilidade.

Se em junho de 1974 Giuseppe Venosta interroga-se, no semanário italiano Panorama, sobre o destino de Espanha – “vai seguir o exemplo de Portugal?”2 (Venosta 66) –, já Sandro Ottolenghi escreve, três semanas antes das eleições para a Assembleia Constituinte, que Portugal se tinha tornado o ponto central da política internacional e que os acontecimentos resultantes do contragolpe de 11 de março de 1975 (radicalização à esquerda do processo político) haviam tido, sobretudo em Itália, reflexos inesperados. O enviado especial de L’Europeo conclui : “Joga-se uma carta muito importante no póquer das relações de força e do futuro da Europa. Talvez do mundo” (Ottolenghi 28).

Em conformidade com os valores-notícia recenseados por vários autores (Galtung & Ruge 1965; Chaparro 1994 ; Wolf 200 ; O’Neill & Harcup 2009 ; Harcup & O’Neill 2017 ; Schultz 2007), o processo revolucionário que se iniciou após a queda do Estado Novo evoluiu a partir de modelos que se podem definir novelescos ou de folhetim. Desenvolveu-se, neste sentido, a partir de dezenas de episódios, no contexto do mesmo quadro histórico (acompanhamento), reveladores de forte interesse público e identificação/relevância devido, por exemplo, à proximidade geográfica (Europa), cultural (latinos, europeus) e – desejava-se – política (sistema político, segurança ocidental). Muito se escreveu e relatou porque a Revolução portuguesa tinha todos os ingredientes necessários para construir uma interessante história : datas marcantes (28 de setembro, 11 de março, 25 de novembro), rumores, intrigas, golpes e contragolpes, manifestações, violência, romantismo, ocupações, personagens (magnitude, notícias positivas, notícias negativas).

O investimento na rede de captura de informação (enviados especiais, correspondentes) constitui um sinal de que os episódios-notícia se adequaram ao ritmo de trabalho das empresas jornalísticas (frequência, agenda dos jornais), denotando elevado impacto no espaço público e envolvendo amiúde um número significativo de personagens (intensidade, amplitude, magnitude) (Galtung & Ruge 1965 ; Harcup & O’Neill 2017). Mesmo se a clareza foi um elemento raramente associado aos acontecimentos portugueses, cumpre salientar que esses, pela natureza novelesca e imprevisível (inesperado, surpresa), facilitaram a criação de um imagem pré-mental em consonância com as expetativas dos articulistas, motivando prognósticos e previsões sobre a evolução do processo revolucionário (consonância com as expetativas). O caráter novelesco estabeleceu, ainda, uma relação prolongada com a agenda mediática, uma vez que assuntos já noticiados suscitaram análises ulteriores em função de acontecimentos complementares (continuidade, desenvolvimentos supletivos) (Galtung & Ruge 1965; Harcup & O’Neill 2017).

A Revolução de Abril, apesar de não promover nenhum líder iniludível, evoluiu em redor de personagens em nada indiferentes aos media internacionais, como se tratasse de celebridades, de António de Spínola a Vasco Gonçalves, Otelo Saraiva de Carvalho, Costa Gomes, Melo Antunes, Mário Soares e Álvaro Cunhal. A abordagem às caraterísticas pessoais e aos percursos políticos dos sujeitos envolvidos foi notória (personificação), não faltando elementos essenciais para a construção de uma interessante história em qualquer sistema mediático : negatividade (regime militar marxista, democracia popular, democracia direta), polémica (PCP3 vs PCI4; Álvaro Cunhal e a estratégia de tomada do poder), dramaticidade (golpes militares, onda de violência anticomunista do Verão Quente), conflito (Soares vs militares e Cunhal; disputas entre militares conservadores, filocomunistas, populistas e moderados), envolvimento de países proeminentes do sistema bipolar geopolítico mundial e elite de poder (Estados Unidos vs União Soviética) (Galtung & Ruge 1965 ; Harcup & O’Neill 2017).

Reportando, por exemplo, às coberturas jornalísticas italiana (Gomes 2015), francesa (Mesquita & Rebelo 1994) e espanhola (Luís 2015) sobre os acontecimentos portugueses no imediato pós-25 de Abril, constata-se que os critérios de noticiabilidade considerados (Galtung & Ruge 1965 ; Chaparro 1994 ; Wolf 2001 ; O’Neill & Harcup 2009 ; Harcup & O’Neill 2017 ; Schultz 2007) modelaram a hierarquia noticiosa daqueles países e contribuíram para difundir um enquadramento construído do mundo social - teoria do agendamento (Zelizer 2004 ; Harcup & O’Neill 2017). A comunidade interpretativa (Zelizer 2000) envolveu-se no acontecimento Revolução de Abril e procurou interpretar e encontrar explicações para a realidade observada. E é neste sentido que Mário Mesquita, ao analisar a cobertura jornalística da imprensa francófona (França, Bélgica e Suíça), refere que os jornalistas “adoptaram regra geral um estilo analítico, sem prejuízo de um sentimento quase unânime de adesão ao restabelecimento da democracia” (Mesquita & Rebelo 65). A tribo jornalística (Traquina, 2004) evidenciou, por isso, um aprisionamento aos “’primas de atitudes’ que condicionam a sua própria percepção e explicação dos acontecimentos” (Mesquita & Rebelo 65).

Não há dúvida de que o setor de informação e os campos político e social em vários países, especialmente na Europa, como Espanha, França e Itália, entre outros, apropriaram-s ou relançaram várias questões suscitadas pelo curso revolucionário em Portugal, como a união das esquerdas, a representatividade política, a mediação partidária e a intervenção popular direta, a função das Forças Armadas e o estatuto da imprensa num contexto democrático. Esse fator favoreceu a introdução de assuntos tematicamente enquadrados (composição, agenda dos órgãos de informação) no âmbito dos noticiários e relatos jornalísticos (imprensa, rádio, televisão), pelo que o processo português colocou em confronto as duas principais nações mundiais (Estados Unidos, União Soviética), os seus representantes políticos e a maior parte dos países e líderes europeus (envolvimento de nações e pessoas de elite).

Não poucas temáticas oriundas da Península Ibérica (perigo comunista, territórios africanos) originaram outros episódios-notícia em Itália (terrorismo/Aginter Press, “caso República”, exclusão do Partido da Democracia Cristã para as eleições de 1975) (Gomes 2015), em Espanha (transição guiada ou rutura com o passado franquista) (Luís 2015) e França (legitimidade revolucionária vs legitimidade democrática) (Mesquita & Rebelo 1994). Essa apropriação ou relançamento de questões que serviram de pretexto à discussão de problemas de política interna em vários países resultou de diferentes e específicas circunstâncias políticas e sociais. No caso de Espanha foi devido à queda de Franco. No caso de França, o Programa Comum da esquerda entre socialistas e comunistas, assinado em 1972. Em Itália, mergulhada num agitado clima eleitoral e de luta política, foi devido ao projeto do compromisso histórico5 e à proximidade das eleições administrativas de 1975 e das eleições políticas de 1976. O caso italiano é, aliás, paradigmático quando se percebe que a pergunta Dove vai l Portogallo? emergiu em inúmeras ocasiões pela voz de atores políticos, jornalistas e comentadores, suscitando episódios políticos e sociais críticos, sentimentos de vituperação, solidariedades e entusiastas reações, inflamadas polémicas entre intelectuais, políticos e agentes sociais6, discussões no parlamento e nas assembleias municipais e regionais, preferências políticas em detrimento de opções editoriais (cfr Gomes 2015).

Desde o início de 1975 que os acontecimentos portugueses foram ocupando, consistentemente, os espaços nobres dos órgãos de informação italianos, não apenas aqueles dedicados à atualidade internacional, mas igualmente as secções focadas na política interna da península. Enquadram-se neste segmento notícias sobre terrorismo que contemplam referências às ligações entre neofascistas italianos e células portuguesas, textos sobre as repercussões do “caso República” em Itália, unidades de redação que relatam a instrumentalização realizada pelos atores políticos italianos a partir de temáticas suscitadas pela Revolução de Abril – exclusão do Partido da Democracia Cristã para as eleições de 1975 e impacto no XIV Congresso do PCI, documento conjunto PCI e PSI7, revisão da Concordata e, entre outras, unicidade sindical (cfr Gomes 2015).

A nova ordem impulsionada pelos Capitães de Abril revelou, por sua vez, as verdadeiras posições do embaixador italiano em Lisboa (1971-1974), Girolamo Messeri, sobre a evolução do processo político português, posições que, denotando pouca simpatia pela nova ordem de abril, redundaram em inflamadas altercações devido ao modo como os interesses diplomáticos de Roma eram representados em Portugal. Girolamo Messeri foi, aliás, o grande protagonista do “caso Ghioto” que contribuiu para acentuar a fratura entre o setor da informação e o poder político, no que diz respeito à liberdade de imprensa e à independência dos jornalistas.

Esta pesquisa tem como objetivo revisitar os designados “caso Messeri” e “caso Ghioto” a partir da imprensa italiana, compreender quem foi Girolamo Messeri, a sua ação política em Lisboa e qual a relação que une o “caso Messeri” ao “caso Ghioto”, no âmbito do arco temporal que medeia os anos de 1972 e 1975. A abordagem recorre à imprensa italiana de referência (Corriere della Sera, La Stampa), da imprensa semanal (L’Europeo, Giorni Vie Nuove, Il Mondo) e de jornais partidários (Lotta Continua, L’Unità). Cumpre salientar que esta reflexão constitui um pequeno fragmento, não publicado, da tese de doutoramento por nós apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 2015, intitulada Dove va il Portogallo ? A Revolução de Abril na Imprensa Italiana (1974-1976).

Metodologicamente, adota-se a perspetiva de Michel Foucault (1969/2005, 57) sobre o enunciado, que é aqui trabalhado como um acontecimento “que nem a língua nem o sentido podem esgotar por inteiro”. Tal como o acontecimento, o enunciado é único e oferece-se à repetição, à transformação, à reativação e, segundo Foucault (147), irrompe com estatuto, circula em redes, oferece-se ao uso, às transferências e modificações, “torna-se tema de apropriação ou rivalidade”.

No contexto desta pesquisa, a problematização foucaultiana convida a observar as ocorrências enquanto acontecimentos discursivos (Foucault 1969/2005), quer sejam encontros entre atores políticos e sociais, manifestações, confrontos físicos entre ativistas políticos ou iniciativas culturais, quer sejam discussões no âmbito de sessões parlamentares, de congressos, declarações à imprensa, notícias ou reportagens destinadas a revelar tomadas de posição ou determinadas análises e considerações.

I/ Portugal e Itália : relações diplomáticas

Roma, 25 de Julho, 1943 : o Grande Conselho Fascista exonera Benito Mussolini. Lisboa, 25 de Abril, 1974 : o Movimento dos Capitães derruba o Estado Novo. Estes dois acontecimentos balizam cronológica e simbolicamente o ensaio historiográfico de Vera de Matos (2010) sobre as relações diplomáticas entre Portugal e Itália. Trata-se de um contributo que fornece um fotograma muito bem documentado das afinidades e tensões entre os dois países. O estudo demonstra que a natureza antagónica dos sistemas políticos de ambas as penínsulas não impediu, ao longo de 31 anos, uma diplomacia de progressiva aproximação, malgrado os momentos de fricção dos quais derivam algumas dificuldades de relacionamento responsáveis por uma maior debilidade dos vínculos histórico-culturais.

A autora avança logo no introito dois fatores que justificam esta dimensão ambivalente: a) assunção da necessidade de cooperação mútua estimulada pela evolução da conjuntura internacional (fórmula política da Guerra Fria, projeto europeu, emergência do Terceiro Mundo, descolonização); b) eclosão de obstáculos político-ideológicos que, provocados pela influência dos partidos da esquerda italiana, pela persistente conotação do Estado Novo com o autoritarismo e colonialismo, impedem a fluência do diálogo e de iniciativas bilaterais (Matos 2010).

O fio condutor que sistematiza as principais temáticas no contexto da diplomacia luso-italiana estabelece cinco períodos dotados de dinâmicas autónomas. O primeiro refere-se ao ciclo temporal que medeia a assinatura da paz separada pelo governo de Pietro Badoglio (1943) e a instauração da República em Itália (1946). É designado por período de transição em virtude de os dois Estados procurarem reposicionar-se no xadrez geopolítico mundial. O sistema estadonovista tentou apropinquar-se dos Aliados resguardando a sua matriz antidemocrática de eventuais efeitos negativos decorrentes das disposições internacionais. Itália procurou minimizar as consequências de um passado recente intimamente relacionado com o Eixo. Os dois países possuíam, assim, desígnios convergentes (Matos 2010).

O segundo período abarca os últimos três anos da década de 40. Por ainda ser um momento de reposicionamento estratégico no quadro euro-atlântico, as iniciativas bilaterais nos domínios económico e cultural prevaleceram em relação à diplomacia no campo político. A política externa de Portugal e Itália focalizou-se, sobretudo, na valorização do diálogo com as potências do mundo ocidental (França, Inglaterra, Estados Unidos) (Matos 2010).

Em sentido contrário, os anos 50 representam uma etapa relevante na história das relações entre os Estados. Não apenas Roma e Lisboa admitiram formalmente a necessidade de aliviar tensões recíprocas, como emergiu uma clara intenção de estreitamento dos laços histórico-culturais (latinidade). Esta aproximação permite identificar esferas de ação convergentes : afinidade dos dois países com a América Latina ; perceção do Mediterrâneo enquanto zona estratégica de segurança e de presença política para Portugal e de influência cultural, económica e política para Itália ; intenção declarada de elevar, nas duas capitais, as legações à categoria de embaixada (Outubro de 1956) e cooperação na defesa dos ideais e dos valores, ocidentais, partilhados pelos dois povos face ao avanço do comunismo ; Itália insere África nas prioridades da sua política económica e partilha a teoria salazarista da cooperação Europa-África8 (Matos 2010).

A questão africana levantou, no entanto, problemas. A sintonia de Roma com os movimentos independentista, em colisão com o colonialismo português, condicionou a presença italiana em territórios ultramarinos. Lisboa denotou desconfiança quanto às declaradas intenções de Roma em Angola e Moçambique.

Vera de Matos (2010) utiliza a expressão anos de chumbo para classificar o período de 1960 a 1967. Segundo a autora, este quarto período corresponde a uma fase de retrocesso claro nas relações diplomáticas. Aspetos como a guerra colonial, o crescente protagonismo das esquerdas em Itália, assim como a deterioração da imagem do Estado Novo perante a sociedade italiana (colonialismo, totalitarismo), motivaram a adoção de medidas por parte de Roma, em contraste com as expetativas portuguesas. Os governos liderados pelos democratas-cristãos esforçaram-se para desconstruir qualquer imputação de lusofilia (Matos 2010).

O quinto e último período, de 1968 a 1974, evidencia um esforço de Itália para recuperar o clima de cordialidade entre os dois governos : se condenou, por um lado, o colonialismo português através de ações como, por exemplo, o abandono do financiamento da barragem de Cahora Bassa, em Moçambique, manifestou, por outro lado, compreensão quando optou por uma posição abstencionista no quadro das resoluções das Nações Unidas contra Lisboa. O maior empenho manifestou-se, também, quando Roma enviou para o Palácio do Conde Pombeiro, em 1971, o polémico e influente embaixador Girolamo Messeri, quando forneceu material militar (aeronaves) ao governo de Marcelo Caetano e mostrou interesse em projetos económicos em Portugal (Porto de Sines) (Matos 2010).

Este foi o período durante o qual a política externa liderada por Aldo Moro, ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1969 e 1974, demonstrou maior tolerância face ao governo português, “pois além de acreditar na estratégia de ‘autonomia progressiva’ defendida por Marcelo Caetano, verificava a evolução negativa dos novos Estados africanos, convertidos em ditaduras e em transgressores do ponto de vista das dignidades e dos direitos humanos” (Matos 199). A atuação de Roma remete então para uma política de duplicidade entre 1968 e 1974 : simultânea condenação e complacência face ao colonialismo de Lisboa.

Ao longo de quatro décadas, várias ações materializaram uma vontade comum de cooperação entre os territórios italiano e português. Através de organismos oficiais (Instituto Italiano de Cultura, Lisboa - 1936), de organizações científicas (Accademia del Mediterraneo, Palermo - 1949), de coletividades autónomas (Centro per la Cooperazione Mediterranea, Palermo - 1952) ou de grupos com interesse específico pela cultura portuguesa (Gruppo dei Amici del Portogallo, Roma - 1947), parece que as afinidades históricas e culturais acabaram por prevalecer. Um exemplo disso é a criação de leitorados de português em diversas universidades italianas nas décadas de 1960 (Milão, Génova, Florença, Pisa, Roma) e 1970 (Veneza, Perugia, Bari, Bolonha).

Esta breve síntese do relacionamento entre os dois países releva alguns aspetos que irão adquirir protagonismo no imediato pós-25 de Abril. Trata-se, na verdade, de personalidades e instituições ligadas à vida político-social italiana que, a partir dos acontecimentos portugueses, fundamentaram estratégias de ação em conformidade com os seus desígnios.

Em primeiro lugar, tanto os partidos ou coletivos de esquerda (PCI, PSI, Manifesto-PdUP9, Luta Continua e Vanguarda Operária) como a DC10 serão responsáveis por um discurso que, profundamente inflamado pelas eleições regionais de junho de 1975, apropriará algumas das principais temáticas suscitadas pelo processo lusitano de transição para a democracia. Portugal entrará, assim, no festival de surpresas, expressão utilizada por João Hall Temido11 (2008) para caraterizar a política interna italiana.

Em segundo, se as iniciativas de Girolamo Messeri, entre 1971 e 1974, reforçaram a posição ambígua de Itália diante de Lisboa e do seu colonialismo, a ação do embaixador revestir-se-á, no imediato pós-25 de Abril, de enorme controvérsia e dificultará a definição de uma política oficial de Roma em relação aos acontecimentos portugueses. Mais : em consequência da sua atividade política em Portugal, a figura de Messeri estará no âmago de uma acesa disputa e troca de acusações entre o PCI e a DC, questão que se abordará mais à frente.

Por último, e não diretamente relacionado com o processo revolucionário português, importa referir que alguns movimentos políticos africanos estabeleceram ligações com partidos italianos através de viagens a Itália ou beneficiando das deslocações de delegações italianas a África, como aconteceu em novembro de 1975 com o PCI. Berlinguer, desde cedo solidário com a luta do MPLA12 em Angola, visitou a Argélia, a Guiné-Conacri e a Guiné-Bissau, onde se encontrou com Aristides Pereira e Luís Cabral, líderes do PAIGC13.

Sete anos depois de Agostinho Neto ter apresentado em Milão o ensaio poético Com os olhos secos (1963), diversos nacionalistas das Províncias Ultramarinas reuniram-se, em Roma, no âmbito da Conferência Internacional de Solidariedade para com os Povos das Colónias Africanas (1970). Em março de 1973 foi a vez da Conferência Nacional de Solidariedade com os Movimentos de Libertação nas Colónias Portuguesas, realizada em Reggio Emilia e contando com a presença de ativistas africanos, entre os quais Samora Machel (FRELIMO14), além dos mais representativos partidos da esquerda italiana (PCI, PSI, PSIUP15).

II/ Quem foi Girolamo Messeri?

O nome de Girolamo Messeri é sinónimo de diplomacia, carreira política, anticomunismo, qualidades oratórias, sólidos conhecimentos no domínio dos equipamentos militares, acusações sobre o conúbio com o mundo mafioso siciliano, conflitos e polémicas políticas. Girolamo Messeri foi o embaixador italiano em Lisboa, entre 1971 e 1975. Durante esse período ficou associado a alguns episódios que originaram inflamadas altercações em Itália e dificultaram, no imediato pós-25 de Abril, as relações diplomáticas entre Lisboa e Roma.

Quando se procura perscrutar, através da imprensa italiana, o percurso deste siciliano nascido, em Trapani, a 14 de novembro de 1914, licenciado em Ciência Política, logo emerge um sinuoso percurso construído nos bastidores do aparelho democrata-cristão. A profusão de incidentes críticos aos quais se encontra relacionado levanta o manto da curiosidade e até parece sugerir a imagem de uma caixa de pandora. Messeri foi uma personagem incómoda e motivo de atração para as lentes jornalísticas.

Para melhor se compreender a sua ação aquando da nova ordem política em Portugal e as consequências dessa atividade ao nível da política interna italiana, é necessário dar um passo atrás para contar a história. Quem foi então esta influente figura dos círculos políticos romanos ? Segundo o exaustivo levantamento de Aldo Santini (1975), no semanário L’Europeo, Girolamo Messeri, com pouco mais de vinte anos, era já regente do consulado italiano em Chicago, passando depois para a embaixada em Washington. Após a assinatura do armistício entre a Itália monárquica e os Aliados, em 1943, participou em Brindísi na constituição do Ministério dos Negócios Estrangeiros, integrando, de seguida, o consulado da Argélia e, posteriormente, o conselho diplomático de Alcide De Gaspari.

No âmbito das lutas internas do aparelho democrata-cristão, tornou-se conselheiro político de Amintore Fanfani e foi-lhe atribuído um papel importante na constituição da linha política e diplomática convencionalmente designada de corrente fanfaniana. Escreve Santini (1975) :

Ser fanfaniani significava possuir muitos adversários e encontrar-se exposto a inflamadas polémicas. Messeri não foge à regra. Os seus críticos escrevem que o prémio para esta atividade diplomática é o laticlávio16 (Santini 16).

Em 1958 deixou, provisoriamente, a diplomacia para entrar na atividade política, sendo eleito senador da DC pela Sicília. É neste momento que se começa a falar das relações entre máfia e política, no sentido em que os seus adversários acusam-no de ser um importante referente da estratégia preconizada pela Cosa Nostra, que deixara de secundar liberais e monárquicos para apoiar os democratas-cristãos. Em suma : acusam-no de ter sido eleito com a ajuda dos votos da máfia (Barrese 1972). O boss mafioso Frank Coppola chegou a declarar aos juízes que apoiara as candidaturas de diversas figuras políticas na Sicília, entre as quais Girolamo Messeri. Os homens políticos citados por Coppola desmentiram e processaram-no.

Em 1963, o sociólogo Danilo Dolci, empenhado na luta antimáfia, esforçou-se para demonstrar as relações entre o mundo mafioso e o senador Messeri, afirmando possuir provas das estreitas ligações de afinidade entre Frank Coppola e Messeri e da influência do primeiro na ascensão política do segundo. Seguiu-se o processo instaurado pelo senador a Danilo Dolci. Mas o sociólogo insistiu e, através do seu centro de estudos, renovou as acusações num convénio em Roma (outubro, 1964), coligindo todo o material sobre o assunto no livro Chi gioca solo (1964).

A 4 de dezembro de 1963, Girolamo Messeri ingressou no governo de centro-esquerda, liderado por Aldo Moro. Um ano depois demitiu-se alegando não estar de acordo com a linha governativa que pretendia levar a cabo relações comercias com Pequim. Foi também em 1964 que o grupo comunista iniciou a cruzada contra Messeri, pedindo um debate parlamentar com base nas acusações de Danilo Dolci. Nascia o “caso Messeri” que viria a ganhar outra amplitude, em 1966, devido ao alegado envolvimento do democrata-cristão em negócios dúbios relacionados com equipamentos militares (Santini 1975).

As referências, num relatório enviado pelas cúpulas militares ao ministro da Defesa, Roberto Tremelloni, de que Messeri se deslocava, frequentemente, ao Pentágono, oferecendo os seus bons serviços para a realização de negócios com as Forças Armadas italianas, criaram embaraços em Roma e Washington. Roberto Tremelloni foi obrigado a clarificar que Messeri não havia recebido nenhum mandato das Forças Armadas para se movimentar nos ambientes militares (Santini 1975). O PCI não perdeu tempo e aproveitou a oportunidade para realizar nova cruzada e pedir esclarecimentos no parlamento.

As sucessivas polémicas criaram dificuldades à DC, abdicando de apresentar Messeri como candidato nas eleições de 1968. Seguiu-se o regresso à atividade diplomática. Nesse mesmo ano foi-lhe atribuído o cargo de embaixador itinerante para a América Latina e os Estados Unidos, função prontamente contestada pelos seus opositores, na medida em que seria mais uma operação destinada a silenciar o protagonismo de figuras democratas-cristãs incómodas. Em 1971 foi designado embaixador em Portugal sob a égide de Aldo Moro, ministro dos Negócios Estrangeiros. Comentando a nomeação, a agência noticiosa AIPE, próxima dos ambientes da Defesa, escreve :

Na Farnesina17 afirma-se que Messeri terá solicitado a sede de Madrid, que contrariamente foi entregue a outro fanfaniano, o embaixador Marchiori. A designação para Lisboa de um especialista em equipamentos militares deixa pensar que a estratégia diplomática de Moro diante de Portugal passa por intensificar as relações já frequentes neste setor. As Forças Armadas portuguesas utilizam aviões G-91 construídos pela Fiat e helicópteros Agusta (citado por Santini 17).

Quando anteriormente se analisou o percurso das relações diplomáticas entre Portugal e Itália no pós-II Guerra, Vera de Matos (2010) conclui que o período que medeia os anos de 1968 e 197418, abarcando a regência de Girolamo Messeri, é caraterizado pelo esforço italiano de recuperar o clima de cordialidade entre os dois governos. Não obstante condenar o colonialismo português, Roma optou por uma posição abstencionista no quadro das resoluções das Nações Unidas contra Lisboa, evidenciando empenho ao fornecer material militar (aeronaves) e interesse em projetos económicos em Portugal (Porto de Sines). A autora afirma que a política externa liderada por Aldo Moro denotou maior tolerância face ao governo de Marcelo Caetano, pautando a atuação por uma linha de duplicidade que remete, como se referiu, para a simultânea condenação e complacência face ao colonialismo de Lisboa. É esta a grelha de leitura que deve nortear a compreensão da chegada de Girolamo Messeri ao Palácio do Conde Pombeiro.

III/ As revelações de Giorni Vie Nuove e as consequências do telegrama publicado por Il Mondo

Em março de 1972, a revista Giorni Vie Nuove, conotada com o PCI, publicou o texto de um relatório enviado dois meses antes por Girolamo Messeri ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros. Trata-se de um apelo do governo português aos dirigentes italianos para que encetassem diligências no sentido de bloquear o reconhecimento por parte da ONU dos movimentos de libertação das colónias portuguesas. O relatório é altamente comprometedor para o embaixador em Lisboa.

Girolamo Messeri define a África negra como uma “sociedade criminal” e afirma que a ONU sofria de um processo “degenerativo e contagioso” (Giorni Vie Nuove 15). Dirige pesadas ofensas ao imperador etíope Negus porque traíra Portugal depois de tomar o poder e convida o governo italiano a apoiar as solicitações portuguesas contra os “criminosos” que lideravam os movimentos de libertação em Moçambique, Angola e na Guiné. Explica, ainda, que os cidadãos das províncias portuguesas em África, fossem brancos, negros ou mestiços, não pretendiam ser governados por regimes atrasados e liderados por chefes de tribos, decididos a assassinar em massa os seus adversários (Giorni Vie Nuove, 16).

Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

Depois dos ecos mediáticos suscitados pelo serviço – não assinado – de Giorni Vie Nuove, o PCI voltou à carga e reabilitou o “caso Messeri”, apresentando pedidos de esclarecimentos no parlamento com vista à exoneração do diplomata e solicitando ao governo italiano que endossasse uma resposta firme contra as pretensões do sempre qualificado regime fascista português. Os socialistas, por sua vez, advertiram que seria necessário rever profundamente as representações diplomáticas no estrangeiro. São estas iniciativas da esquerda italiana que pressionaram os governos democratas-cristãos para endurecer a política em relação a Lisboa, sendo com base nas mesmas que o Ministério dos Negócios Estrangeiros alegou não poder subir o nível de colaboração solicitado em várias ocasiões por Portugal.

Claramente, a imprensa constituiu um meio para relançar e alimentar as lutas políticas entre os partidos da esquerda italiana – com o PCI em posição proeminente – e a DC, com o seu modo de governar. Os jornais voltariam a desempenhar um papel determinante no âmbito do percurso político de Girolamo Messeri, contribuindo novamente para abalar a reputação do diplomata. O mês de novembro de 1974 deu a conhecer outro texto jornalístico altamente embaraçoso, com relevantes consequências no plano político, social e no campo do jornalismo, provocando comoção generalizada na opinião pública. A Revolução de Abril apresenta-se como cenário de fundo.

O semanário Il Mondo (1974) publicou uma reportagem – não assinada – dando conta de um telegrama-relatório enviado por Messeri a Mariano Rumor, o então ministro dos Negócios Estrangeiros. O teor do escrito revela, por um lado, o comprometimento e a admiração do embaixador pelo Estado Novo e, por outro, o sentimento de repulsa em relação à nova ordem erigida com o 25 de Abril e, particularmente, depois de 28 de setembro de 1974, quando o general António de Spínola renunciou à Presidência da República na sequência do seu envolvimento na abortada manifestação da maioria silenciosa.

O telegrama começa por referir que o clima de violência e anarquia surgido com o 25 de Abril obrigara Spínola a abandonar a liderança do país, pelo que “agitadores de vária ordem”, conduzidos pelo desejo de eversão, haviam-se apoderado de todos os centros de poder, das indústrias vitais, dos órgãos de comunicação e denunciado por afinidades com o regime deposto todos aqueles que reclamavam os mais elementares princípios de ordem. Os mesmos princípios de ordem que o Estado Novo – salienta – “assegurara por longo tempo, dentro da certeza de um Estado de direito” (citado por Il Mondo 13).

Girolamo Messeri descreve uma atmosfera onde pontificam multidões de operários ecoando “reivindicações absurdas”, no contexto de um quadro político caraterizado pela “incapacidade” dos primeiro e segundo governos provisórios e pela total ascensão do PCP. Afirma que o problema residia na formação dos jovens oficiais, alimentados por ideais marxistas-leninistas nas pausas da guerra, a quem acusa de terem perdido “o sentido de moderação” e esquecido que “as disputas entre soldados ajustam-se sobre a linha de tiro dos pelotões de fuzilamento” (citado por Il Mondo 13).

Na sequência da publicação do telegrama-relatório, o diretor de Il Mondo, Renato Ghiotto, foi processado por Girolamo Messeri e condenado a dois anos de prisão efetiva. A informação foi considerada confidencial. O veredito foi tornado público a 11 de junho de 1975, no final da campanha paras as eleições Regionais e Administrativas. Encarado como ataque à liberdade de imprensa e mais um sinal de descrédito das instituições, o “caso Ghiotto” agitou a opinião pública e a política italiana.

Em largos setores da imprensa organizou-se uma recolha de assinaturas que, aludindo, entre outros casos, à condenação de Ghiotto, pretendia denunciar as precárias condições que regiam a atividade dos jornalistas. A mobilização da opinião pública e dos profissionais de informação contra a sentença foi vigorosa, originando manifestações da sociedade civil, do mundo da cultura e do espetáculo, tomadas de posição, editoriais, cartas de leitores, artigos de opinião e reportagens sobre o passado do diplomata. La Stampa, por exemplo, dedicou dois editoriais ao assunto, ao passo que a Federazione Nazionale della Stampa Italiana, as várias associações e ordens de jornalistas regionais lançaram apelos em defesa da liberdade de imprensa. O “caso Messeri” contribuiu para reavivar o debate sobre o peso dos partidos, particularmente da DC, na atribuição das representações diplomáticas no estrangeiro. O diretor de Il Mondo recorreu e viria a ser absolvido em 1978.

Figura 2: Reportagem Il Mondo (1974); apelo em defesa da liberdade de imprensa (Corriere della Sera 1975); cartoon Lotta Continua (1975) “Fanfani tem um agente em Lisboa-Don Girolamo Messeri”.Figura 2: Reportagem Il Mondo (1974); apelo em defesa da liberdade de imprensa (Corriere della Sera 1975); cartoon Lotta Continua (1975) “Fanfani tem um agente em Lisboa-Don Girolamo Messeri”.

Figura 2: Reportagem Il Mondo (1974); apelo em defesa da liberdade de imprensa (Corriere della Sera 1975); cartoon Lotta Continua (1975) “Fanfani tem um agente em Lisboa-Don Girolamo Messeri”.

Figura 2: Reportagem Il Mondo (1974); apelo em defesa da liberdade de imprensa (Corriere della Sera 1975); cartoon Lotta Continua (1975) “Fanfani tem um agente em Lisboa-Don Girolamo Messeri”.

O incidente compreende, no entanto, outros desenvolvimentos. Ainda antes de a sentença ter sido proferida, o Corriere della Sera deslinda, em abril de 1975, outros contornos do caso que remetem para o braço de ferro entre comunistas e democratas-cristãos. O jornal afirma que o episódio poderia dificultar a definição de uma política em relação a Portugal. Em duas colunas, na página 2, o artigo não assinado refere que o PCI havia questionado o governo no parlamento e pedido o afastamento de Girolamo Messeri, acusando-o de ter apoiado o regime de Caetano e os seguidores de Spínola no contragolpe de 11 de março em Lisboa (Corriere della Sera 1975). Ou seja, a informação tornada pública pelo Il Mondo cerca de cinco meses antes foi novamente reabilitada pelo grupo comunista com o intuito de encetar outra investida contra o adversário político de longa data.

O artigo enquadra, ainda, o “caso Messeri” numa grelha de leiura mais ampla, afirmando que o governo italiano “se deveria resignar e enfrentar, em condições difíceis, uma polémica muito delicada”, no quadro de um problema mais importante : qual a política a adotar em relação a Portugal (Corriere della Sera 2). O diário milanês afirma que uma série de razões motivavam a DC e o governo italiano a olhar com defidência a orientação e a atividade do novo regime português, concluindo :

Como em outros países, também em Itália se coloca a questão de dar um ajuda a Portugal. [...] Ao se recusar aceitar, mesmo com as devidas cautelas, a nova realidade de Portugal, corre-se o risco de desencorajar a ligação com o resto da Europa, de endurecer o regime contra as alianças ocidentais e levá-lo a inserir-se num sistema de alianças diferente. [...] Existe o perigo real que exigências de política interna [italiana] induzam uns e outros, os comunistas e os democratas cristãos, a explorar a ‘questão portuguesa’ em vez de olhar com realismo para a situação. O interesse italiano é de agir, certamente, com grande prudência, mas respondendo positivamente à exigência de Portugal se ligar à Europa e à esperança que permaneça no sistema de alianças ocidentais (Corriere della Sera 2).

Efetivamente, o conteúdo do telegrama-relatório publicado por Il Mondo em novembro de 1974 saltou para o inflamado confronto político que opunha em Itália, nessa altura, os dois maiores partidos do arco parlamentar. Salientando a amizade pessoal e as ligações políticas entre o secretário-geral da DC, Amintore Fanfani, e o embaixador Messeri, os comunistas – escreve o Corriere – haviam ainda denunciado as interferências de Fanfani a favor da ditadura portuguesa e na própria política externa italiana. O jornal da Via Solferino sublinha, no mesmo artigo de abril de 1975, que essa tinha sido a resposta do PCI à retirada da delegação da DC do XIV Congresso comunista (março, 1975) e às intenções de Fanfani fazer de Portugal tema da campanha eleitoral (Corriere dela Sera 2).

Passando em revista as páginas de L’Unità durante o biénio 1974-1975, percebe-se que o PCI investiu no “caso Messeri” também para criar dificuldades ao seu oponente democrata-cristão (L’Unità 1975a). Aliás, o PCI conheceu o mesmo desfecho que recaíra sobre os adversários de Girolamo Messeri : os processos judiciais. Em novembro de 1974, uma delegação comunista deslocou-se a Portugal e, no âmbito de uma conferência de imprensa, no Porto, teceu duras críticas à forma como os interesses italianos eram representados em Portugal. Messeri processou os parlamentares comunistas, expoentes do partido e um jornalista do L’Unità. O processo viria, posteriormente, a ser arquivado (L’Unità 1975b).

Por altura das eleições para a Assembleia Constituinte de 1975, o enviado especial de La Stampa em Portugal insurgiu-se contra a singularidade que revestia a situação da embaixada italiana, órfã de um representante diplomático. Escreve Sandro Viola (1975) : “O único governo europeu a quem não interessa a ‘questão portuguesa’ é ao governo italiano. A situação da nossa representação diplomática em Lisboa tem, de facto, contornos incríveis” (Viola 18). Viola corrobora a versão do Corriere della Sera ao sustentar que Girolamo Messeri poderia estar ligado aos estados de ânimo da DC, apostados em instrumentalizar a questão portuguesa e condenar a experiência portuguesa depois de os militares de Lisboa terem afastado o Partido da Democracia Cristã das eleições de 25 de abril de 1975.

O embaixador Messeri foi oficialmente transferido de Lisboa para Ancara em maio de 1975, mas não sem motivos de polémica. O nome do diplomata ficou associado, a partir de 1976, ao “escândalo Lockheed”, a empresa norte-americana que admitiu ter pagado a políticos e militares europeus para vender a esses Estados aviões militares por si fabricados. O “caso Lockheed” envolveu o Presidente da República Giovanni Leone e alcançou enorme impacto mediático e político, nos anos 70, em países como a Holanda, República Federal da Alemanha, Japão e Itália.

Considerações finais

As repercussões dos acontecimentos portugueses em Itália resultam do encontro simultâneo entre, de um lado, o debate sobre o compromisso histórico, a conflitualidade associada à luta política interna, o radicalismo de alguns setores da sociedade italiana e o quadro geopolítico internacional e, do outro, a multiplicidade temática dimanada da Revolução de Abril, as suas contradições e a pertinência das questões suscitadas. Em Itália, o percurso revolucionário associado à transição para a democracia em Portugal polarizou o debate político e social em redor de problemáticas como o estatuto da imprensa em contexto democrático, a unidade das esquerdas, o eurocomunismo, a unidade/unicidade sindical, a laicidade do Estado em matérias como o divórcio ou a função das Forças Armadas na organização política e social. Alimentou o debate sobre a presença de partidos comunistas no governo de países da Aliança Atlântica, lançou (ou confirmou) novos dados sobre o terrorismo e municiou a discussão sobre a função dos partidos em processos de transição para a democracia, sobre a mediação partidária e a intervenção popular direta.

Através da revisitação de dois episódios mediáticos eclodidos na imprensa italiana, no biénio 1974-1975, o “caso Messeri” e o “caso Ghioto”, tendo como protagonista o embaixador italiano em Lisboa entre 1971 e 1975, Girolamo Messeri, constata-se que o processo político iniciado após a queda do Estado Novo suscitou questões que serviram de pretexto para aproveitamento político e instrumentalização de problemáticas do ponto de vista da política interna italiana, processo que resgatou assuntos com maior ou menor exposição mediática e originou novos acontecimentos discursivos (Foucault 1969/2005).

O “caso Messeri” insere-se claramente na luta política entre, de um lado, o PCI e as restantes forças de esquerda italianas e, do outro, os democratas-cristão ininterruptamente no poder desde 1946. Apresenta como cenário de fundo, primeiro, os últimos anos do Estado Novo, na década de 70, quando Roma evidencia um esforço para recuperar o clima de cordialidade com Lisboa (Matos 2010), e, em segundo, o biénio revolucionário 1974/1975, momento em que o governo italiano, à semelhança de outros países ocidentais da Aliança Atlântica, se revela bastante relutante em compreender a orientação política adotada, sobretudo, pelos governos provisórios (II, III, IV, V) em Portugal liderados por Vasco Gonçalves.

O “caso Ghioto”, dimanado do “caso Messeri”, enquadra-se na problemática da liberdade de imprensa já muito presente na sociedade italiana em virtude dos processos de concentração das empresas jornalísticas, responsáveis por energéticas reações dos profissionais da informação em nome da liberdade de imprensa e da pluralidade de vozes. Temas como a autogestão, o segredo profissional, a consciência profissional dos jornalistas e a idoneidade dos proprietários colocaram em evidência que por tantas vezes os homens das notícias e os homens da política encontram-se em latitudes opostas, os primeiros preocupados com o que os espera em cada dia e os segundos preocupados com o que os espera em cada ato eleitoral.

O tema da liberdade de imprensa estará por longos anos no centro do debate público italiano e centrar-se-á, sobretudo, na questão da concentração das empresas jornalísticas e do pluralismo informativo. Os rumorosos processos de concentração decorreram, a partir de meados da década de 70, da crise financeira e das lutas de poder protagonizadas pela classe política. A tendência estendeu-se ao setor livreiro, à distribuição da publicidade, à atividade cinematográfica e comportou motivações de racionalização que, numa primeira fase, foram políticas, ideológicas e culturais, passando, de seguida, ao lucro económico (Bechelloni 1974).

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Notas

1 Em 25 de novembro de 1975 assiste-se à tentativa de golpe das forças ideologicamente conotadas com a esquerda radical e à consequente reação dos militares moderados do Movimento das Forças Armadas. Voltar ao texto

2 As traduções das citações em língua estrangeira para português são da nossa responsabilidade. Voltar ao texto

3 Partido Comunista Português. Voltar ao texto

4 Partido Comunista Italiano. Voltar ao texto

5 O projeto do secretário-geral do PCI, Enrico Berlinguer, tematizado em setembro de 1973, propunha a aliança entre as forças que representavam a grande maioria do povo italiano, do proletariado aos camponeses, dos católicos aos laicos, através da coligação com a DC e o PSI. Com uma matriz nacional, reformadora, visava mobilizar o tecido unitário no sentido do renovamento e progresso democrático do edifício social e das estruturas do Estado. Voltar ao texto

6 Os espaços dedicados pela imprensa italiana à voz dos leitores constituem um excelente barómetro para aferir o interesse que a Revolução de Abril suscitou na opinião pública. Voltar ao texto

7 Partido Socialista Italiano. Voltar ao texto

8 Tese segundo a qual a autonomia da Europa no quadro internacional bipolar (Estados Unidos vs União Soviética) só era possível caso o Velho Continente baseasse o seu desenvolvimento económico nos recursos africanos. Voltar ao texto

9 Partido de Unidade Proletária para o Comunismo. Voltar ao texto

10 Democracia Cristã. Voltar ao texto

11 Embaixador em Roma entre 1968 e 1971. Voltar ao texto

12 Movimento Popular de Libertação de Angola. Voltar ao texto

13 O Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde. Voltar ao texto

14 Frente de Libertação de Moçambique. Voltar ao texto

15 Partido Socialista Italiano de Unidade Proletária. Voltar ao texto

16 Referente ao cargo de senador. Voltar ao texto

17 Sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Voltar ao texto

18 Até ao 25 de Abril. Voltar ao texto

Ilustrações

  • Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

    Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

  • Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

    Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

  • Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

    Figura 1: A reportagem de Giorni Vie Nuove, em março de 1972, acusa Girolamo Messeri de racismo

  • Figura 2: Reportagem Il Mondo (1974); apelo em defesa da liberdade de imprensa (Corriere della Sera 1975); cartoon Lotta Continua (1975) “Fanfani tem um agente em Lisboa-Don Girolamo Messeri”.

    Figura 2: Reportagem Il Mondo (1974); apelo em defesa da liberdade de imprensa (Corriere della Sera 1975); cartoon Lotta Continua (1975) “Fanfani tem um agente em Lisboa-Don Girolamo Messeri”.

  • Figura 2: Reportagem Il Mondo (1974); apelo em defesa da liberdade de imprensa (Corriere della Sera 1975); cartoon Lotta Continua (1975) “Fanfani tem um agente em Lisboa-Don Girolamo Messeri”.

    Figura 2: Reportagem Il Mondo (1974); apelo em defesa da liberdade de imprensa (Corriere della Sera 1975); cartoon Lotta Continua (1975) “Fanfani tem um agente em Lisboa-Don Girolamo Messeri”.

Para citar este artigo

Referência Eletrônica

Marco Gomes, « Do Estado Novo para a Revolução dos Cravos : Girolamo Messeri, o embaixador incómodo. Luta política e liberdade de imprensa », Reflexos [Online], 10 | 2025, Online desde 09 décembre 2025, Acessado em 17 février 2026. URL : http://interfas.univ-tlse2.fr/reflexos/2249

Autor

Marco Gomes

Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra (CEIS20)

Instituto Politécnico de Leiria – Escola Superior de Educação e Ciências Sociais

Centro de Estudos em Educação e Inovação (CI&DEI)

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